Como controlar a nossa agressividade ao aplicar um castigo nos filhos? Convidada especial: Rafaela Gonçalves


Clarinha me ajudava a descarregar a feira quando encontrou um pacote de castanhas caramelizadas, de que ela tanto gosta. Foi então que soltou a pérola:

- Você é a M.M.U.I.!!!! M.M.U.I.!!! M.M.U.I.!!!

Eu, que já estou acostumada com seus acrósticos e mnemônicos, fiquei tentando traduzir o que seria a tal sigla, e arrisquei:

- Melhor Mãe do Universo Inteiro?

- Não, mãe, o universo não tem fim, ora!!! Melhor Mãe do Universo Infinito.

O título, embora tentador, não me caiu bem e dele não me apoderei, por absoluta consciência de que não me pertencia. Tenho para com elogios exagerados a mesma dificuldade de engolir comprimidos grandes e remédios amargos.

Noutro dia, porém, a conversa era com a Mariana, que além de ter os pés bem plantados no chão, tem também os mesmos elevados padrões de exigência, como a mãe dela. Não me lembro mais o que eu fiz para agradá-la, mas foi algo que a fez concluir:

- Mãe, você é a melhor mãe que eu pude ter.

Alguns segundos de silêncio depois, eu lhe respondi – Mari, eu sou de fato a melhor mãe que eu posso ser. E naquele elogio realista, sem exagero, sincero e justo, eu me encontrei. Foi o melhor elogio que já recebi na vida, porque era verdadeiro. Eu não apenas sou a melhor mãe que ela pôde ter, como sou a única.

Tenho plena consciência das minhas qualidades como mãe, mas elas não me impedem de reconhecer os meus inúmeros defeitos. Sou humana, tenho cá minhas limitações e, embora eu divulgue no blog apenas os meus ângulos fotogênicos, tenho reações que vivo tentando superar e contornar o tempo todo.

Quando estou estressada e não consigo deixar meus problemas do lado de fora, tenho uma tendência a explodir por bobagens. Um guarda-roupa desarrumado, uma tarefa mal feita, uma briga entre irmãs, uma resposta malcriada, enfim, nada que eu mesma não tenha feito na idade delas. O problema é que só percebo que elevei a voz quando minha garganta dá sinais de fadiga. Fico me sentindo a mosca do cocô do cavalo do bandido, por não ter conseguido controlar meus nervos. Respiro fundo, conto até 10 e recomeço, num volume mais baixo. Quem grita perde a razão, diz o senso comum.

Foi então que resolvi convidar a Rafaela Gonçalves, que é psicóloga infantil e tem um blog direcionado à orientação de pais, para conversar conosco sobre esse assunto, porque desconfio que não estou sozinha nesse barco e creio que o que a Rafaela tem a nos dizer pode nos ajudar a sermos as melhores mães e os melhores pais que pudermos ser.

Com a proximidade do dia dos pais, o texto abaixo não poderia ser mais propício. Leva-nos a uma reflexão sobre o nosso papel de educadores e formadores de personalidade. Com vocês, Rafaela Gonçalves, do Orientação aos Pais.

 

castigo

Como controlar a nossa agressividade ao aplicar um castigo nos filhos?

“Olá!! Meu nome é Rafaela, sou Psicóloga clínica e mantenho um blog de Orientação aos Pais no ar! Antes de falar sobre o tema, preciso agradecer a oportunidade de estar aqui no Feito a Mão! Acompanho desde o ano passado quando queria dar um ar mais personalizado ao grupo de terapia para crianças que tenho, e me surpreendi com tanta delicadeza e cuidado nas produções feitas pela Claudinha! E virei fã!

Agora, aqui estou eu, para conversar com vocês sobre um assunto delicado, sugerido pela própria Cláudia, mais que precisa ser discutido: Como controlar a agressividade ao aplicar um castigo?

Com as atribuições do dia a dia de trabalho, cuidados da casa, responsabilidades da família, etc. sobra bem pouco tempo para cultivar a paciência. Tenho percebido que, de um tempo pra cá, os pais têm terceirizado cada vez mais a educação para professores, familiares, e até nós, psicólogos. Acreditam muitas vezes que são incapazes de formar e educar pessoas. Recebo com frequência casos assim lá no consultório, e nesse momento preparo os pais a tomarem as rédeas da educação dos seus filhos, não é fácil, não é rápido, mas a satisfação de conseguirem não tem preço! Essa pequena introdução foi para encorajá-los a identificar onde está a verdadeira dificuldade, se na criança obedecer, ou se nos pais em aplicar as regras diárias.

Quando falamos em limites, obediência, estamos falando de regras. E antes da aplicação delas deve existir toda uma preparação, uma combinação de acordos entre os adultos. Depois de escolhidas e anunciadas para os pequenos, está na hora da aplicação! Lembrem-se que nenhuma criança obedece regras porque gostam, quando muito novinhas o fazem por amor incondicional aos pais; quando mais velhas, fazem à medida que acham coerentes (aqui cresce o desafio, ser coerente ao aplicar uma regra implica dizer se você, enquanto adulto, também o faz). Quando isso acontece é comum os adultos entrarem num jogo de medir forças de quem manda mais!

Quando entram nesse jogo, todos saem perdendo, regras foram feitas por adultos responsáveis e que sabem (ou estão se esforçando) o que é melhor para seus filhos. Na hora da aplicação de tais regras a dica mais preciosa é: tenha em mente a regra descumprida, não desfoque, seguros do que estão fazendo não têm motivos para descontrole. As crianças vão tentar a todo custo burlar tais normas, e cabe ao adulto manter a firmeza daquilo que acreditam.

E se não forem regras quebradas e sim estresses diários? Neste caso mudamos completamente o foco das crianças e passamos aos adultos. O que tem te tirado a paz quando o assunto é a educação dos filhos? O que tem te irritado? Saber disso é importante para começar um processo de mudança!

Todos temos frustrações suficientes para darmos doses extras aos filhos, se naquele momento está percebendo que a situação saiu do controle, está na hora de passar a bola para o companheiro, ou outro adulto responsável, isso não será um passo para trás, muito pelo contrário, continuar insistindo nesse descontrole só vai trazer a culpa horas depois, e quando isso acontece a autoestima vai lááá pra longe! Quando estiver com a cabeça mais fria, chame os filhos para uma conversa, explique o que tem te deixado nervosa (o) e achem soluções juntos para isso, se derem oportunidades das crianças opinarem talvez se surpreendam com as saídas simples que encontrarão!

Bom gente é importante lembrar que cada família é um universo único, cheio de valores adquiridos e tantos outros construídos. Não existe uma fórmula mágica, nem uma forma simples de fazer, mais todos nós podemos modificar um padrão de comportamento a partir de atitudes diferentes, afinal, resultados diferentes só acontece quando nós ousamos nos comportar diferente. Quando existe amor, não existem erros, existem tentativas de acertos, talvez com pequenos ajustes tudo possa funcionar de uma forma saudável para todos!

Vou ficando por aqui na expectativa de ter estimulado aos leitores promoverem mudanças!!

Bjos,

Rafaela Gonçalves
Psicóloga
CRP 15/2886”

 

___

Obrigada, Rafa, por aceitar o meu convite. Fico muito honrada com sua presença e tenho certeza de que seu texto ajudou bastante a clarear os caminhos de quem, como eu, vive em busca de superar suas limitações, seja como mãe ou como pessoa, num sentido mais amplo.

Um grande abraço,

Claudinha

    Postado por Feito a Mão em convidada especial,papo de mãe | Comentários (30)
    

    30 Comentários to “Como controlar a nossa agressividade ao aplicar um castigo nos filhos? Convidada especial: Rafaela Gonçalves”

    1. Ellen disse:

      Adorei o post e já estou correndo para o blog dela.

      beijos

    2. Luciana disse:

      Claudinha, que tema complexo heim? E olhe que este é apenas um grão de areia na vasta lista de “itens” que compõem a rotina de educação de nossos filhos.Concordo com a Rafaela que as atribuições da rotina nos impulsionam à escassez de paciência e eu particularmente me policio para que ela não me falte no momento em que mais preciso quando lido com minhas duas filhas ao estarem um situações que precisam ser chamadas à atenção. Mas como cada caso é um caso, também vivo tentando acertar mas sem stress e tirando lição dos meus erros na tentativa de criá-las da melhor forma que eu puder com muito amor e respeito. Bjs

    3. Claudinha, obrigada pela ajuda de trazer a Rafaela para este bate-papo. Me enquadro muito neste “descontrole”, as vezes só vou perceber quando também minha voz desgasta. Obrigada do coração. Xero, Jana.

    4. Val Araujo disse:

      Olá, me identifiqui bastante com o relato da autora do blog, sou muito agressiva com minha filha que tem apenas 1 ano e 1 mês! Não bato nela graças a Deus, mas grito bastante e quebro coisas para descontar minha raiva. Não quero esse sentimento dentro de mim! Eu sempre fui explosiva, desde muito pequena, mas agora que sou mãe não quero expressar essa agressividade em minha filha. Peço todos os dias a deus para que eu pare de gritar com ela mas é mais forte que eu, não sei mais o que fazer. Sempre me arrependo depois q tudo passa mas na hora nnão consigo controlar! Sinto que preciso de ajuda!

      • Feito a Mão disse:

        Val, vc tem consciência do problema, já é um começo. Sua filha ainda é muito nova, ainda nem começou a fase das birras. Eu nunca bati na Mariana, mas já dei umas palmadas na Clarinha duas vezes. Nas duas vezes, ela extrapolou os limites.
        O problema é que não suporto ter de pedir a mesma coisa milhões de vezes. Parece que elas só escutam quando elevo a voz ou ameaço algum castigo. Talvez a questão esteja na forma como estou expressando minha autoridade. Se não grito com ninguém, por que deveria elevar a voz justo para as pessoas que mais amo? Aqui em casa eu sou mais rigorosa que Mário, acabo fazendo o papel de vilã.
        O importante é não deixar que essas eventais explosões virem hábito.

    5. oi querida,estou aos prantos, pois acabei de passar por uma destas situações: meus filhos filhos de 08 e de 04 estão igual a cão e gato, hoje durante uma briga deles peguei o mais velho apertando o pescoço do pequeno que já estava quase sem ar, me descontrolei dei umas palmadas e muitos gritos, agora o mais velho está na escola o mais novo assistindo tv , e eu me sentindo péssima.

      • Feito a Mão disse:

        Lilian, sou da opinião que -de vez um quando- uma atitude como essa sua é a única possível. Não se culpe, o importante é não fazer desse comportamento um hábito. Vc não está só. Bj

    6. Claudinha, adorei esse post, embora não tenha filhos. Acho que é bastante útil para as mamães e tem uma abordagem bem equilibrada. A história dos elogios da Calrinha e o da Mariana é bem interessante e, pelo que te conheço, você é bem pé no chão e coerente. Vou repassar o link pras minhas irmãs! Um grande beijo! Voltei hj à vida virtual e suas receitas estão lá no post de hj!

      • Feito a Mão disse:

        Katinha, não há fórmulas quando o assunto é criar filhos, mas compartilhar experiências nos faz sentir melhor, percebemos que não estamos sós.

    7. Rafaela disse:

      Fiquei mt feliz com o post, obrigada Claudinha por me ajudar a proporcionar a essas mamães um pouco de conforto, quando a gente se sente amparada as mudanças acontecem mais saudavelmente!! Fiquei muito feliz!! Qualquer coisa, estou ás ordens! Bjos!!

    8. Juliana Torres disse:

      Nossa que ajuda e tantoooo sobre como educar filhos! Adorei Claudinha, é sempre bom ouvirmos e lermos, vindo de alguém que entende com maestria,pois como vc disse, não existe uma cartilha pronta para educarmos nossos filhos, cada caso é um caso e cada que criança é criança!! A diversidade e a especificidade faz parte do ser humano e como faz!! Às vezes tb tenho essa sensação que vai fugir do meu controle, mas respirooo fundoooo e tento retomar aos poucos…obg pela ajudinha básicaaaaa!! Nós mamães estavámos precisandoooo rsrsrsrs bjs

    9. Val Araujo disse:

      Claudinha, obrigada por responder a meu comentário.Sou igual vc, não suporto ter de pedir mil vezes a mesma coisa! Ela andou com 9 meses e agora já é bem espertinha e sapeka! Não deixa nada no lugar, meche em tomada, meche no fogão, mexe em tudo! Fico irritada quando falo mais de 10 vezes, o pior é que ela me provoca, mesmo tão pequena quando tiro ela de um lugar e digo não ela vai lá com raiva e pega olhando pra mionha cara, como se estivesse me desafiando! Tbm sou a “vilã” de minha casa, meu marido é super tranquilo mas eu grito o dia todo. Engraçado é que a gente só é assim com as pessoas que a gente ama, já reparou??? Só grito com quem mais amo.
      Tô tentando me controlar ao máximo para parar com isso, se não conseguir vou ter q procurar ajuda, pois não quero passar essa agressividade para minha filha, apesar que ela já pegou…é bem agressivinha ás vezes.
      Parabéns pelo Blog!

      http://cantinhotudoaver.blogspot.com

    10. Ótimo post, gostei muito do blog da Rafaela também, vou passar sempre por lá.
      Eu sou uma pessoa calma, de voz baixa, não sei nem chamar alguém de longe pq não consigo gritar. Porém o temperamento e a personalidade forte da minha filha de 5 anos me faz agir diferente do que sou, com ela eu “preciso” gritar, ameaçar, estressar, senão ela não me atende, não obedece, me enfrenta, desafia. Mas juro que tento, peço as coisas com calma, converso, explico, mas nem sempre funciona.
      E isso me deprimi, me irrita, me chateia, me sinto culpada e uma péssima mãe.
      Meu Deus, como é difícil lidar com isso!
      Não pode bater, não pode gritar, tudo dá trauma, só pode conversar, é conversando que a gente se entende (diz a lenda).
      Mas, assim como a Cláudia, já precisei dar umas palmadas na Juju e elas doeram mais em mim, viu? Um castigo que resolve (às vezes) é ficar no cantinho, “de pensamento”.
      Enfim… vamos aprendendo juntas, errando, acertando e “rezando”, pedindo a Deus sabedoria para fazer o melhor a cada dia.
      Bjo grande!

      • Feito a Mão disse:

        Marlene, não se culpe, o Dr Içami Tiba tem uma expressão pra designar nossa geração: somos carne de pescoço. Quando crianças, fomos educadas a deixar o melhor pedaço fo frango para os pais, hoje os deixamos para nossos filhos, nos sobra o pescoço. Com essa comparação ele aborda as dificuldades que envontramos ao impor limites aosnossos filhos.

    11. Amei a leitura, fui deslizando pelas linhas, já imprimi e vou levar a algumas pessoas que a gente sempre acha que poderiam ter um pouquinho a mais de paciência.

    12. Fernanda Martins disse:

      Claudinha, seu blog é lindo e sempre me deixa babando pela delicadeza do que faz.
      Hoje em especial, vim agradecer o carinho com minha irmã Rafaela, ela é sua fã, e sempre vem aqui ver suas dicas, foi atravez dela que conheci o blog, e vim dizer q esse post foi mto especial e preparado com muito carinho! sou suspeita pra falar, mas minha irmã é uma grande profissional..rs
      Beijo!!

    13. Leda disse:

      Parabéns pelo tema, estou tentando aplicar algumas regrinhas para os meninos de 18 e 21 e também pra Mariana de 7. As palavras da Rafaela foram perfeitas. Um beijão.

    14. Oi Cláudia! Já passei por aqui algumas vezes mas é a primeira vez que comento. Adorei o post. Sabe algumas vezes tb faço como vc, eu vou acumulando as puxadas de orelha sabe, para evitar o estresse, aí chega uma hhora que dano a gritar como louca e depois me arrependo.

      • Feito a Mão disse:

        Seja bem-vinda, Vanessa. Vamos nos policiar juntas, pra não exagerarmos a dose, certo? O importante é não nos culparmos nem nos sentirmos as últimas mães do planeta.

    15. Liliane disse:

      Hoje foi um dia DAQUELES….
      Eu já havia lido o post da Rafa no meu celular..mas dpois deste dia onde o stresse dominou, me senti obriga a reler para eu não dormisse tão culpada.
      Tenho dois filhotes lindos e perfeitos (Lina de 1 ano e meio e o Artur de 4) e sei que manter a calma é dificil.
      é reconfortante saber que não sou a única a viver este dilema…

      A matéria me ajudou muito.

      Xeru meninas.

    16. [...] me abri de corpo em alma, como só quem não tem mais nada a perder, se abre em busca de ajuda. Falei sobre a dificuldade de controlar a agressividade ao impor um castigo a um filho. Aquele post me levou a conhecer pessoalmente a Rafaela Gonçalves, [...]

    17. claudia disse:

      Bom dia!!!
      Gente estou com problemas graves, meu filho está muito rebelde.
      Mas o problema maior sou eu, estou totalmente descontrolada, sou um pessoa muito nervosa e ultimamente tudo me incomoda, só fico bem durante a madrugada, quando todos estão dormindo, essa é a unica hora que eu estou bem.
      Estou sem paciência nenhuma com os meus filhos.
      Me ajudem pelo amor de Deus.

    18. Aucirlandia pereira marins disse:

      Ola,meu pequenino so tem 1 ano e oito meses,so tem ele,com essa idade ele e muito agressivo mais so com migo,me bate a toda hora,nao tem paciencia ou seja nao tem medo de mim,tudo dele e com agressividade, ja nao sei mais o que fazer! bjsss

    19. Ana disse:

      Nossa,ando muito msm estressada,brigo muito com meus filhos,e depois de uns minutos me arrependo…que faco???Ficosozinha com eles,por que meu marido trabalha.

      • Feito a Mão disse:

        Ana, tenha paciência. Respire fundo e, quem sabe, procure ouvir um profissional. Pode ser umpsicólogo o a orientadora escolar das suas crianças. Conversar pode lhe ajudar.

    20. lilian disse:

      também ,ando bem impaciente ,meu descontrole com minha filha de 12 anos está total.e me sinto tão culpada.a situação piora ainda mas quando estou de tpm ,ai acho que vou enlouquecer ..

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